Paciente de 17
anos, primigesta, veio ao pré-natal com 21 semanas e sem queixas. Ao exame
especular foi observado prolabamento das membranas até o terço superior da
vagina e ao toque apurou-se colo curto e dilatado para 3 cm.
Ao US foi
confirmada idade gestacional, a normalidade morfológica do concepto, a
dilatação do canal cervical e a presença de membranas e líquido amniótico na
vagina com a imagem de dilatação "em dedo de luva" ou "bico de
mamadeira"
Após a
raquianestesia e posição de Trendelenburg acentuado, percebeu-se que não
ocorreu a redução das membranas. Para evitar o trauma mecânico sobre as
membranas, optou-se pela técnica de diminuição da pressão intra-uterina.
Sob visão
ultra-sonográfica, realizou-se punção por via abdominal com retirada de 80 ml.
de líquido amniótico.
Com a
diminuição da pressão dentro da cavidade uterina produzida pela diminuição do
volume de líquido amniótico e posição de Trendelenburg houve redução das
membranas para o interior da cavidade uterina , o que permitiu o pinçamento e
tração dos lábios do colo uterino e a realização da circlagem.
A circlagem foi
realizada segundo a técnica de McDonald: sutura em bolsa, transmucosa a 1 cm do orifício externo com
fio de Supralene-2, com a oclusão do canal cervical, o que permitiu proteção às
membranas.
Ao receber alta
hospitalar, após 5 dias de observação, a paciente foi orientada a permanecer em
repouso e sem uso de antibióticos e uterolíticos.
A gravidez
evoluiu até 32 3/7 semanas, quando a paciente retornou ao Serviço em trabalho
de parto. Retirado o fio de circlagem, observou-se dilatação cervical de 5 cm. A rotura das membranas
foi espontânea neste momento com trabalho de parto de evolução rápida e parto
normal com recém-nascido pesando 2.015 g, AIG (peso adequado à idade
gestacional), Apgar 9/9 e que recebeu alta em boas condições.
Discussão
O tratamento da
IIC preconizado pela maioria dos autores é a circlagem por via vaginal. Ela
deve ser realizada preferencialmente ao redor da 14ª semana da gravidez,
ocasião em que ainda não aconteceram modificações cervicais e já se ultrapassou
o período em que ocorrem os abortos precoces, de outras causas. Se a paciente
já chega ao Serviço com dilatação do colo uterino, havendo condições, deve-se
realizar a circlagem de emergência, procedimento que garante melhor
prognóstico.
Entretanto,
freqüentemente o prolabamento das membranas dificulta ou impossibilita a
realização da circlagem, determinando risco elevado de rotura das membranas
pelo manuseio traumático das mesmas ou pela possibilidade de sofrerem
perfuração na passagem do ponto, além de mecanicamente impedirem a passagem da
sutura em bolsa, uma vez, que ao ocuparem toda a vagina, escondem as bordas do
colo uterino.
Foram descritas
várias manobras para a reintrodução das membranas ao interior da cavidade
uterina: utilização de chumaço de gaze embebido em soro fisiológico para
empurrar as membranas, uso de sonda com balão que ao ser inflado exerceria
pressão sobre as membranas, etc., medidas estas em alguns casos de extrema
valia para o prosseguimento da gestação. Esse manuseio, entretanto, por si só
pode determinar agravo às membranas, que são estruturas frágeis, aumentando o
risco de rotura e interrupção da gravidez.
Em 1992, Evans
et al. relataram um caso de IIC com a cérvix totalmente dilatada em que foi
realizada a amniocentese intra-operatória para descompressão do saco amniótico
e o uso de indometacina como uterolítico, com o que conseguiram prolongar a
gestação por 12 dias. Em 1994, Ochi et al. sugeriram a amniocentese e a
superdistensão da bexiga como procedimento a ser realizado em casos de
membranas prolabadas, para possibilitar a circlagem de emergência, com bons
resultados na sobrevida dos conceptos.
Em nossa
paciente a retirada de líquido amniótico na 21ª semana foi o procedimento
necessário e suficiente para garantir a redução das membranas prolabadas,
permitindo a realização da circlagem. Não determinou complicações, possibilitando
a evolução da gravidez e a sobrevida do concepto.
Julgamos que a
amniocentese com drenagem de líquido amniótico pode ser procedimento auxiliar
nos difíceis casos de IIC com protrusão de membranas, permitindo a realização
da circlagem sem traumas mecânicos de contacto às membranas prolabadas.
ATENÇÃO: as
informações
disponibilizadas neste site e fornecidas através da newsletter do site
CERCLAGEM têm propósitos orientadores, e não representam um
substituto
para aconselhamento e/ou tratamento médico especializado.